Governança corporativa na prática: por que o discurso não se sustenta?
Introdução
A governança corporativa na prática muitas vezes se distancia do discurso. No artigo “Conceitos de Governança de TI” eu abordei sobre o tema, explicando que é o conjunto de processos, costumes e leis que norteiam a forma como uma organização é administrada, toma decisões, controla riscos e garante transparência.
Na teoria, é difícil encontrar alguém que seja contra… mas, na prática, quantas vezes você já viu a governança sendo respeitada de verdade?
Baseado na minha experiência em ambientes corporativos, sobretudo em estruturas com elevada maturidade, escrevi esse artigo para provocar uma reflexão: até que ponto valorizamos a governança — e até que ponto premiamos quem consegue contorná-la?
A importância da governança corporativa nas organizações
Antes de qualquer crítica, é importante deixar claro: governança é essencial.
Empresas sem governança tendem a:
- tomar decisões inconsistentes;
- aumentar exposição a riscos;
- perder rastreabilidade;
- criar dependência de pessoas, não de processos;
A governança bem estruturada traz previsibilidade, segurança e equidade. Ela protege não só a organização, mas também os próprios colaboradores. Em ambientes regulados ou com alto grau de complexidade, ela deixa de ser diferencial e passa a ser requisito básico.
O ponto de ruptura: quando a governança corporativa vira burocracia
O problema começa quando a governança deixa de ser um meio e passa a ser um fim.
Criação excessiva de regras, fluxos longos de aprovação, processos pouco claros… tudo isso pode transformar a governança em um verdadeiro gargalo operacional.
E aqui surge um comportamento bastante comum: quanto mais burocrático o processo, maior a tentação de “dar um jeitinho”.
Um fluxo de aprovação que deveria levar horas, leva dias. A demanda é urgente. O cliente pressiona. O gestor quer resultado. O que acontece? Alguém encontra um “atalho”…. e muitas vezes, esse atalho resolve.
O paradoxo corporativo: discurso x governança corporativa na prática
É aqui que a governança começa a perder força.
No discurso, o alto escalão reforça:
- “Precisamos seguir os processos”;
- “A governança é inegociável”;
- “Compliance em primeiro lugar”;
Mas na prática, o comportamento valorizado pode ser outro: o profissional que segue rigorosamente o processo, é visto como “engessado”, “pouco flexível” ou, no pior caso, alguém que “não entrega”.
Já aquele que contorna a regra é visto como “o cara que resolve”, “o cara que faz acontecer” ou pior, “ele tem perfil de dono”.
Perceba o risco: a empresa passa a recompensar exatamente o comportamento que sua governança tenta evitar.
O impacto silencioso dessa contradição
Esse desalinhamento não gera problema imediato — e talvez por isso seja tão perigoso.
No curto prazo, os resultados aparecem… mas no médio e longo prazo, o efeito é outro:
- enfraquecimento da cultura de governança
- insegurança sobre o que é “certo” ou “aceitável”
- decisões cada vez mais baseadas em exceções
- aumento de risco operacional e reputacional
e, talvez o mais crítico:
- os bons profissionais começam a se questionar se vale a pena fazer o correto.
Seguir a regra ou entregar resultado?
“Governança” não deveria ser sinônimo de lentidão assim como “agilidade” não deveria depender de exceções.
Quando o único caminho para entregar resultado é “burlar o processo”, o problema não está na execução está no desenho da governança. Processos precisam ser revisados, simplificados e, principalmente, compatíveis com a realidade operacional da empresa.
Isso parece óbvio, mas existe um detalhe muito relevante: nas grandes organizações, a governança é, muitas vezes, definida por quem está longe da operação (em outro país ou em um nível não acessível), ou seja, alterá-la quase nunca é uma alternativa.
“Seguir as regras” ou assumir riscos e “entregar com agilidade”? Essa escolha não deveria ser um dilema… mas é… e ainda está muito presente no dia a dia dos profissionais. É praticamente uma cultura organizacional!
Para concluir: a partir do momento que a governança é interpretada como o “conjunto de leis”, assim como em qualquer sociedade, ela não pode ser contornada. Burlar a governança não é “assumir risco”… é incorreto. Em geral, fazer o certo diferencia os profissionais autocentrados (que possuem ambições exclusivamente ligadas à carreira), daqueles que se preocupam com a organização, com os seus pares e liderados.
Conclusão
São diversos os motivos pelos quais a governança corporativa falha na prática:
- excesso de burocracia
- desalinhamento entre liderança e operação
- incentivos que premiam resultados acima do cumprimento de processos
Governança corporativa não se sustenta no discurso — ela se consolida no comportamento.
Empresas que realmente valorizam governança:
- alinham discurso e prática
- revisam processos que não funcionam
- não premiam atalhos como se fossem virtudes
Se a sua organização é daquelas que “premia os atalhos”, não crescer pode ser uma virtude. Tudo vai depender do tipo de profissional que você é.