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26/04/2026

Escalonamento de problemas em projetos: o paradoxo que pode prejudicar sua carreira

José Ferrazza Gestão de Projetos

Introdução

Realizar o escalonamento de problemas em projetos deveria ser algo simples. No artigo “Quando escalonar um assunto?” eu abordei o tema descrevendo o que deve e não deve ser feito quando o tema é escalonamento de problemas em projetos. Agora, o propósito é aprofundar no tema para entendermos que nem sempre “seguir a cartilha” de gestão pode ser a melhor decisão.

Quando uma situação foge do controle operacional, ou ultrapassa o nível de decisão de um colaborador, o caminho natural (e esperado) é levar o tema para o nível superior.

As metodologias modernas, frameworks ágeis e boas práticas de gestão são unânimes: fluxo de informação deve ser rápido, claro e sem ruídos.

Mas, na prática… nem sempre funciona assim.

Baseado na minha experiência, existe um paradoxo silencioso nas organizações: quanto mais alto o nível hierárquico, menor tende a ser a disposição para receber “más notícias”.

O que é o paradoxo do escalonamento?

Isso ocorre quando comunicar problemas dentro da empresa, em vez de ser valorizado, passa a representar risco para a carreira do profissional.

O conceito está certo… no papel

Em teoria, o escalonamento é um mecanismo de proteção:

  • evita que problemas cresçam sem controle
  • garante tomada de decisão no nível adequado
  • aumenta a transparência

Ambientes maduros incentivam o reporte antecipado de riscos, falhas e desvios.

Inclusive, existe um discurso bastante difundido:

Prefiro saber do problema cedo do que tarde demais.

Difícil discordar.

O comportamento real (e pouco falado)

Agora vamos para o mundo real.

Na prática, nem todo líder reage bem quando recebe um problema.

Dependendo do contexto, do momento ou da pressão por resultados, o que deveria ser visto como transparência pode ser interpretado como:

  • incapacidade de resolver
  • falta de controle

ou simplesmente

  • “trazer problema sem solução”
Escalonamento de problemas em projetos

E quanto mais alto o nível do gestor, maior costuma ser a expectativa de estabilidade, previsibilidade e “boas notícias”.

O resultado: o escalonamento começa a ser evitado.

O incentivo invertido

Aqui nasce o verdadeiro problema.

O profissional que faz o “certo”:

  • identifica o risco
  • comunica com antecedência
  • dá visibilidade ao problema

pode acabar sendo visto como alguém que “gera ruído”.

Por outro lado, o profissional que:

  • segura a informação
  • evita expor falhas
  • resolve de qualquer maneira (inclusive violando a governaça corporativa)

muitas vezes é percebido como alguém “resolutivo” e “eficiente”.

Um exemplo comum do dia a dia:
um projeto começa a sair do prazo. Um colaborador sinaliza cedo, escala o risco e pede apoio. Outro prefere não escalar, ajusta escopo sem alinhamento, pressiona o time e “entrega”.

No curto prazo, quem parece melhor?

O custo invisível de esconder problemas

Assim como na governança, o impacto não é imediato — e por isso passa despercebido.

Mas, ao longo do tempo, esse comportamento gera:

  • acúmulo de problemas não resolvidos na raiz
  • decisões baseadas em informações incompletas
  • perda de confiança nos reportes
  • aumento de riscos operacionais

E, talvez o mais crítico:
cria-se uma cultura onde transparência é penalizada e omissão é recompensada.

Não é sobre o colaborador

É fácil colocar a responsabilidade no profissional que “esconde o problema”.

Mas, na maioria das vezes, esse comportamento é aprendido.

As pessoas observam:

  • como líderes reagem a más notícias
  • quem é valorizado
  • quem cresce

E ajustam sua forma de agir.

Se o ambiente pune1 quem escala e valoriza quem “se vira”, a tendência é clara.

O papel da liderança

Se a empresa quer um fluxo de informação saudável, o exemplo precisa vir de cima.

Alguns sinais práticos de um ambiente que valoriza o escalonamento:

  • problemas são discutidos sem exposição pessoal
  • o foco está na solução, não na culpa
  • quem traz risco cedo é reconhecido, não questionado

Mais do que discurso, é a reação do líder no momento da notícia ruim que define a cultura.

Mas Por que realizar o escalonamento de problemas em projetos pode prejudicar sua carreira?

Porque em muitas organizações o comportamento valorizado é a entrega de resultados imediatos, e não a exposição de riscos ou falhas estruturais.

Conclusão

Escalonamento não é sobre “levar problema” mas sim sobre “evitar consequências maiores”.

Mas, quando o ambiente transforma a “má notícia” em risco de imagem, o comportamento muda.

No final, a organização passa a enfrentar não apenas problemas operacionais, mas também a ausência de visibilidade sobre eles. E isso é ainda mais perigoso, pois problemas escondidos não deixam de existir, apenas deixam de ser gerenciados.

E o colaborador: precisa estar atento aos sinais que o ambiente emite. Entrar no jogo político é sempre a pior escolha. Se escalonar é um problema, escondê-lo também será (quando o problema for tardiamente descoberto). Em um ambiente reativo, buscar apoio de pares para um escalonamento conjunto pode ser uma saída política.


💡 Para entender na prática como os temas se conectam, veja o roadmap de Gestao de Projetos.


1Importante ressaltar, que a aversão à falhas e riscos é um comportamente muito comum em organizações com gestão de TI tradicional. A transformação digital tem, em um dos seus quatro pilares, a “cultura da experimentação” que encoraja o risco e não penalize o erro. O artigo “O que é transformação digital” aborda esse tema.

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